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Qualquer dia é dia de palavrão. Ele é
necessário e insubstituível, como disse
o sociólogo Gilberto Freyre. Há quem reclame
que as palavras de baixo calão invadiram a vida
cotidiana de forma irresistível. Jamais se pronunciou
tanto palavrão como nos dias de hoje, e com tanta
volúpia, afirmam tanto os safados como os guardiões
da língua e dos bons costumes. E, de fato, o
palavrão (ou “palavrada”, “palavra
obscena” ou “palavra-cabeluda”) se
intrometeu em todos os registros de fala e todo tipo
de conversação. Por que o fascínio
pelo “submundo”, pelos “esgotos”
da linguagem? Vou tentar responder à questão,
recorrendo primeiramente a um livro.
Em 1974, o folclorista
pernambucano Mário Souto Maior (1920-2001), concluiu
o seu Dicionário do Palavrão e termos
afins, agora republicado num caprichado volume da Editora
Leitura, de Belo Horizonte.
Após um trabalho de dez anos, Souto Maior levantou
3 mil palavrões, entre vocábulos, locuções
e expressões idiomáticas. A obra sofreu
censurado do regime militar e só foi publicada
cinco anos depois, com o início da abertura política
brasileira. Segundo o autor, a obra então já
se afigurava incompleta, em virtude da criação
constante de novos palavrões, “cada dia
que passa”. Ao vir a público, já
se tratava de um título ultrapassado. O que dirá
hoje. Mas isso não importa. O dicionário
é o flagrante de um tempo, que continua a ter
validade trinta anos depois. A intenção
do autor foi dar uma contribuição modesta
“ao estudo da linguagem popular, com possíveis
relacionamentos a outras disciplinas como a Linguística,
a Etnografia, a Psicologia Social e a Sociologia brasileiras”.
Ele tentou revestir a obra de toda respeitabilidade
possível: citações de intelectuais
e um prefácio de Gilberto Freyre.
No entanto, o malfadado
Dicionário virou uma espécie de catecismo
pornográfico que circulou de mão em mão
dos adolescentes no fim dos anos 70. Talvez tenha chegado
o momento de entronizar (sem trocadilhos de segundo
sentido) Souto Maior como um pioneiro da lexicografia
realista. Como ele próprio disse, os falantes
da língua criam palavrões diariamente.
É tamanha a produtividade fescenina da população
que a criação de palavrões muitas
vezes supera a das próprias palavras. Se Adão
tivesse nascido hoje, ele também teria inventado
centenas. Para chegar a seu dicionário, o pesquisador
enviou questionários por carta a 3.620 pessoas.
Agora seria muito mais fácil – e é
curioso que não tenham aparecido desde então
obras do mesmo fôlego. O amor pela descoberta
era maior quando as dificuldades eram maiores...
Curiosamente, Souto Maior
demonstrou que a língua portuguesa é mais
pobre em
palavrões que outros idiomas. Ela perde para
os palavrões em alemão (9 mil) e em francês
(9 mil). Em inglês, palavrões e afins são
mais usados do que pelos falantes em português,
basta ligar a televisão. É preciso dizer
que, quando o Dicionário foi publicado, havia
menos palavrões em circulação.
Mesmo assim, o autor concluiu, com base nas respostas
a seu questionário: “criança de
hoje ganha da de ontem quanto ao uso do palavrão;
e o aumento dos meios de comunicação,
como a televisão, foi o motivo mais apontado”.
Outras conclusões do nosso “folclorista”
(termo igualmente fora de moda) merecem comentários
e relativizações: “O homem, o jovem
e o pobre falam mais
palavrão do que a mulher, o velho e o rico”.
Hoje talvez isso não valha mais. A gente ouve
cada palavrão dito por mulheres e ricos... “O
romancista Jorge Amado foi considerado o escritor que
mais usa o palavrão em sua vasta obra literária,
na qualidade de um dos mais lidos escritores brasileiros,
pois suas edições somaram cerca de três
milhões de exemplares em língua portuguesa”.
Os nossos jovens autores urbanos atiram aos olhos do
leitor todos os palavrões que conhecem e desconhecem.
O consagrado Graciliano Ramos dizia adorar palavrões.
Mas o autor nacional mais lido atualmente, Paulo Coelho,
mantém um discurso olímpico, quase desprovido
de termos chulos. “Quase todos falam palavrão;
quando não falam, pensam”, afirma Souto
Maior, não sem razão. “Um palavrão
do Nordeste é uma palavra educada no Sul e vice-versa”.
Não vamos entrar em detalhes, mas atualmente
os vocabulários de todas as regiões do
Brasil estão se unificando e homogeneizando.
“O palavrão mais usado entre nós
é merda, que é também o mais utilizado
pelos franceses”. Talvez isso tenha mudado. O
substantivo citado foi substituído por um verbo.
Que opine o usuário da língua.
Acho difícil apontar
o palavrão mais falado. A variedade parece infinita.
Afinal, qualquer palavrão hoje não pode
ser mais ser denominado de tabu. Uma exceção
é a palavra escrita. Publicação
que se preze ainda hoje evita palavrões. Na internet,
via blogs e redes sociais, o palavrão virou palavra
qualquer - já se banalizou, como se fosse possível
dizer assim para um tipo de termo que nasceu da própria
banalidade da vida. Antigamente, ele vinha cercado de
interditos, o palavrão “dito na hora certa”
ostentava uma certa aura. Foi assim que virou moda na
década de 60. O vocábulo grosseiro foi
elevado à condição de troféu
da contracultura. No Brasil a moda foi coibida pela
censura do regime militar. Quando a peça Roda
Viva, de Chico Buarque, dirigida por José Celso
Martinez Corrêa, estreou no teatro Ruth Escobar
em São Paulo, o Comando de Caça aos Comunistas
(CCC) promoveu a invasão do teatro em que o espetáculo
era levado, e surrou o elenco do Oficina, o
público e quem mais estivesse por perto –
não sem dizer um monte de palavrões (quem
me contou a história foi o líder do CCC
, o advogado João Marcos Flaquer, então
estudante de Direito do Mackenzie). Isso é irônico,
porque aqueles que se indignavam contra a falta de decoro
do elenco agiam da mesma forma na vida real. Pura hipocrisia,
não é mesmo?
Uma das defensoras do palavrão
a ter se levantado foi a atriz Cacilda Becker. Ela estava
à frente do Sindicato de Atores e Profissionais
de Teatro, e declarou, em citação no prefácio
do Dicionário de palavrões: “Quando
o palavrão vem dentro de um espetáculo
de cultura e atende às necessidades indiscutíveis
de esclarecimento do público – em todo
o Brasil normalmente culto – faz parte da obra
de arte e é absolutamente justificado. Condená-lo
é uma atitude, se não hipócrita,
ao menos ignorante”,
Por mais que seja uma declaração
datada, estrategicamente feita em um momento de censura
e tortura de intelectuais, Cacilda Becker continua a
ter razão. Não é necessário
abusar dos palavrões, até porque eles
se desgastam e perdem o valor como qualquer outra palavra
demasiadamente empregada. O palavrão veio para
ficar, até porque veio antes de qualquer outro
vocábulo. E aqui respondo a pergunta que me fiz
no primeiro parágrafo. Ele exerce fascínio
por ser inevitável. O usuário da língua
vive em um mundo precário e imperfeito, vive
situações cotidianas em que as emanações
dos corpos, a sujeira, os crimes e as tentações
aparecem, mesmo que ele queira evitá-las. Ele
sente desprezo, ele é tomado de preconceito,
ele tem vontade de dizer palavras que talvez não
pronuncie, mas pensa. O palavrão é senhor
do nosso inconsciente.
Mesmo assim, apesar de
seu carisma, até ele cai em desuso. E para este
aspecto que quero chamar a atenção. O
Dicionário de palavrões e termos afins
está coalhado de deliciosas expressões
que se tornaram arcaísmos. E o desuso as faz
soar quase sublimes. Estou me divertindo ao folhear
o volume. Cito algumas expressões. No Nordeste
se dizia antigamente “Amália chegou”,
quando uma mulher ficava menstruada., e “roer
um couro” quando alguém sentia cíúmes.
Também lá o órgão sexual
masculino era chamado de “badalhoco”, “badalo”,
“bacamarte”, “cabeça de frade,
“treboçu” , “são longuinho”
e por aí afora. No Sul, pênis era “chuí”
e “chonga”. Será que algum nordestino
ainda chama o órgão sexual feminino de
“carteira”, “chiranha”, “chiquita”,
“chiruba”, “inchu”, “inhanha”,
“nascedouro”, “pão crioulo”.”prissiguida”?
Em São Paulo, vagina ainda é “marisco
da barra”? Os sinônimos para órgãos
sexuais abundam no dicionário. São menos
numerosas as locuções verbais que designam
ações pouco respeitáveis. No Rio
de Janeiro, “ser do amor” significava um
indivíduo maníaco por sexo. Quem é
pobre mentalmente podia, no Sudeste, “sofrer de
diarreia mental”. Viver à custa da amante
é “chular” na comunidade portuguesa.
“Partir o bolo do céu” era merecer
a fidelidade conjugal no Norte.
O palavrão é
fascinante porque gira historicamente em torno do ato
sexual. Pertence ao domínio púbico (sic).
Nesse sentido, estou de acordo com a definição
para o termo feita por mestre Mário Gardelin,
mencionada no verbete “palavrão”,
naturalmente o mais extenso do Dicionário: “Termo
com vinculação direta ou indireta à
conceituação sexual”. Examinado
perto, o palavrão é igual a qualquer outro
termo de uma determinada língua. Diria mais,
é talvez o mais fiel e castiço dos vocábulos
de um idioma, porque ele vem do fundo dos tempos. Não
por outro motivo, um dos sinônimos para ele é
o substantivo “palavra”.
Fonte: Revista Época, 13
jul. 2010
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